O impacto da Transformação Digital na liderança da Geração Z: o que gestores precisam aprender

A Transformação Digital não é, em sua essência, um processo tecnológico. É, antes de tudo, uma revolução filosófica sobre como existimos, nos relacionamos e produzimos sentido no mundo. Na superfície, ela se apresenta em softwares, dados, plataformas e algoritmos; mas, em sua profundidade mais radical, ela remodela a própria experiência humana. E é justamente nesse ponto que a Geração Z se torna um espelho decisivo, não para o futuro, mas para o presente que muitas (os) líderes ainda relutam em enxergar.

Em Como Liderar as Novas Gerações, argumento que a Geração Z não é um fenômeno comportamental isolado, mas a primeira geração socializada em um ambiente digital pleno, em que identidade, pertencimento, trabalho e subjetividade se constroem simultaneamente no físico e no virtual. A liderança tradicional nasceu em um mundo de fronteiras estáveis; a liderança das novas gerações nasce em um mundo de fronteiras fluidas. Por isso, liderar a Geração Z não é apenas ajustar práticas, é principalmente transformar paradigmas enraizados pelas gerações mais antigas.

A Transformação Digital exige gestores capazes de compreender que seus liderados não habitam apenas o espaço físico da organização, mas um “espaço híbrido de existência”, em que experiências digitais moldam expectativas sobre autonomia, velocidade, liberdade e propósito. A Geração Z cresceu atualizando aplicativos, não organogramas. Ela entrou no mundo do trabalho já habituada a versões beta, e não a estruturas rígidas. É natural que as novas gerações esperem ajustes constantes, ciclos curtos, respostas rápidas e comunicação transparente. Elas não estranham a mudança: estranham a lentidão.

Nesse contexto, muitos gestores enfrentam uma dissonância profunda. Foram formados para interpretar o mundo por lentes estáveis, hierarquias, previsibilidade, controle e agora precisam liderar jovens que só reconhecem autoridade se houver clareza de propósito, coerência, abertura e horizontes éticos compartilhados. A Transformação Digital torna visíveis essa tensão e suas consequências: líderes que insistem em modelos antigos não perdem apenas talentos; perdem relevância.

Do ponto de vista filosófico, liderar na era digital é compreender que a tecnologia não amplia apenas a capacidade humana, mas também as vulnerabilidades humanas. O excesso de informação produz ansiedade; a exposição constante provoca insegurança; a lógica performática das redes sociais impacta autoestima e relacionamentos profissionais. A Geração Z chega ao trabalho carregada de potencial, mas também de fragilidades digitais que não podem ser ignoradas. É responsabilidade da (o) líder reconhecer que cuidar de pessoas, hoje, significa também cuidar da saúde emocional que a hiperconexão ameaça diariamente.

A liderança que floresce na Transformação Digital é, por isso, paradoxal: ao mesmo tempo em que demanda domínio de ferramentas, exige um retorno à dimensão humana mais profunda, empatia, acolhimento, diálogo e um sentido de propósito que transcende métricas. A tecnologia conecta, mas não garante pertencimento. A informação circula, mas não produz sabedoria. A velocidade aumenta, mas não substitui o discernimento. É nesse intervalo entre técnica e humanidade que a (o) líder contemporânea (o) é convocada (o) a atuar.

Se a geração anterior buscava estabilidade, a Geração Z busca significado. Se antes o trabalho era um meio, para muitas (os) jovens ele se tornou parte da identidade. E, nesse cenário, a Transformação Digital impõe uma reflexão necessária: líderes que não compreendem o que lideradas (os) valorizam não conseguem engajá-las (os). A (o) líder do futuro e, na verdade, do presente, precisa aprender a conversar com uma geração que pensa como designer, age como creator e aprende como nativo digital. Essa geração não se motiva apenas por metas; ela se engaja por sentido.

Assim, o impacto da Transformação Digital na liderança não reside apenas na adoção de ferramentas, mas no deslocamento epistemológico que ela impõe. Liderar a Geração Z significa reconhecer que estamos diante de uma forma inédita de existência, mais líquida, mais crítica, mais veloz e mais sensível. Uma geração que demanda líderes dispostos a desaprender, a experimentar e a construir, com eles, novos modos de viver o trabalho.

No fim das contas, a Transfomação Digital é tem menos relação com a tecnologia e mais com um convite: o convite para que líderes se tornem aprendizes novamente. Porque, para liderar a Geração Z, não basta saber o que fazer, é preciso compreender quem ela é. E é nesse encontro entre humanidade e tecnologia, entre filosofia e gestão, que emergem os líderes capazes de guiar organizações em um mundo que não para de se reinventar.

E você, líder, está preparada (o) para esta transformação?

Como citar essa pensata: Barbosa, Aline dos Santos. O impacto da Transformação Digital na liderança da Geração Z: o que gestores precisam aprender. Schola Akadémia, v.4, n.1, p. 1-3. Disponível em: www.scholaakademia.com, 2025.

Sobre a autora

Aline Barbosa

Filósofa, Doutora e Mestra em Administração de Empresas. Especialista em Comuncação, Mercado e Tecnologias de Informação. Bacharel em Comunicação Social. É professora, Investigadora Social, Gestora, Consultora e Mentora Acadêmica. Tem interesse de pesquisa nas temáticas sobre Filosofia, Ética, Desigualdade de Gênero nas Organizações e Sociedade, Violência contra as Mulheres, Carreiras não Tradicionais, Estratégia, Internacionalização, Inovação e de Sustentabilidade, e publica estudos nacionais e internacionais sobre estes tópicos.

Do presencial ao phygital: por que os serviços do futuro precisam unir tecnologia e sensibilidade humana

Lucas chegou à cafeteria do hospital com o cansaço comum dos tempos atuais, aquele de quem vive entre telas e pessoas. Era supervisor de atendimento e acabava de sair de uma reunião sobre a nova plataforma digital que substituiria parte dos processos presenciais. A promessa era simples: “mais eficiência, menos tempo desperdiçado”. Enquanto esperava o café, abriu o aplicativo recém-lançado para testar suas funções. Tudo funcionava, rápido, intuitivo, limpo. Perfeito, ele pensou.

Foi então que Dona Elvira se aproximou do balcão. Caminhava devagar, segurando uma pasta de exames, e olhava ao redor como quem procura algo familiar num mundo que muda rápido demais. Aproximou-se de Lucas, sem saber seu cargo, e perguntou com voz baixa:

— Filho, você sabe onde eu posso pegar aquela senha azul?

Lucas apontou para o totem digital, mas ela hesitou.

— Esses negócios não falam comigo, meu amor. Eu fico nervosa. Tem como você me ajudar?

Ele caminhou até o totem com ela. Demonstrou paciência, explicou cada passo, apertou os botões lentamente para que ela pudesse memorizar o caminho. Quando a senha saiu, Dona Elvira sorriu com um agradecimento sincero que não cabia em algoritmo nenhum.

— Tomara que nunca tirem vocês daqui, disse ela.

Naquele momento, Lucas percebeu o dilema que atravessava seu cotidiano e o de tantos líderes: como equilibrar eficiência digital com humanidade? Como adotar tecnologia sem apagar vínculos? E, principalmente, como liderar equipes em um mundo onde o serviço não é mais presencial nem totalmente digital, mas algo híbrido, fluido, phygital?

A história de Lucas é mais comum do que imaginamos. Ela revela que a Transformação Digital, apesar de essencial, não pode ser confundida com substituição da presença humana. O phygital, essa combinação entre físico e digital, não é apenas um arranjo operacional, mas uma nova condição existencial. Ele reconhece que habitamos, simultaneamente, dois mundos: o mundo das interfaces e o mundo dos encontros; o mundo dos dados e o mundo do afeto.

Serviços, por sua natureza, sempre foram relações. Mesmo quando mediados por telas, continuam sendo encontros entre necessidades humanas. E é nesse ponto que muitos gestores tropeçam: a tecnologia otimiza, acelera, automatiza, mas ela não interpreta fragilidades, não acolhe angústias, não lê o tremor nas mãos de alguém que não entende o totem. A tecnologia potencializa a entrega; a sensibilidade humana dá sentido a ela.

O phygital nasce justamente dessa consciência. Ele afirma que digitalizar é importante, mas humanizar é indispensável. Automatizar etapas repetitivas é inteligente; automação emocional é desastrosa. Quando organizações empurram tecnologia como substituta do vínculo, produzem serviços frios, sem alma, incapazes de sustentar confiança. E clientes, especialmente em setores de cuidado, como saúde, não buscam apenas respostas rápidas, mas experiências que reafirmem sua dignidade.

Em Gestão Estratégica de Serviços, reflito sobre como serviços revelam uma visão de mundo. No contexto phygital, cada decisão tecnológica é também uma decisão filosófica: o que queremos acelerar? O que queremos preservar? O que pode ser resolvido por uma interface? O que só pode ser cuidado por um olhar? Líderes que compreendem essa distinção tornam-se guardiões daquilo que a tecnologia não alcança: o sentido humano da atenção.

A Geração Z, por sua vez, navega no phygital com naturalidade. Ela transita entre o físico e o digital como se fossem extensões um do outro. Para esses jovens, o dilema de Lucas é intuitivo: querem a fluidez tecnológica, mas também a autenticidade humana. Toleram lentidão tecnológica, mas não suportam indiferença emocional. Isso revela que o futuro dos serviços não está na supremacia de um ambiente sobre o outro, mas na integração sábia dos dois.

No fim, a história de Lucas e Dona Elvira nos lembra que o phygital não é um destino tecnológico, mas uma prática ética. Ele existe para ampliar, não para apagar; para facilitar, não para distanciar. A tecnologia é meio. A presença humana é finalidade. E é na interseção cuidadosa entre esses dois mundos que florescem os serviços verdadeiramente transformadores.

O desafio dos líderes, então, não é escolher entre o presencial e o digital. É aprender a tecer, com coragem e sensibilidade, um serviço que honre a complexidade humana em todas as suas formas de existir.

Como citar essa pensata: Barbosa, Aline dos Santos. Do presencial ao phygital: por que os serviços do futuro precisam unir tecnologia e sensibilidade humana. Schola Akadémia, v.2, n.1, p. 1-3. Disponível em: www.scholaakademia.com, 2025.

Sobre a autora

Aline Barbosa

Filósofa, Doutora e Mestra em Administração de Empresas. Especialista em Comuncação, Mercado e Tecnologias de Informação. Bacharel em Comunicação Social. É professora, Investigadora Social, Gestora, Consultora e Mentora Acadêmica. Tem interesse de pesquisa nas temáticas sobre Filosofia, Ética, Desigualdade de Gênero nas Organizações e Sociedade, Violência contra as Mulheres, Carreiras não Tradicionais, Estratégia, Internacionalização, Inovação e de Sustentabilidade, e publica estudos nacionais e internacionais sobre estes tópicos.

O grafite nas cidades: Espaços que respiram nas mínimas existências urbanas

E se as cidades pudessem respirar? Neste texto sensível e poético, o grafite é retratado como gesto de resistência, memória e afeto que rompe o cinza urbano e revela as camadas ocultas da cidade. Mais que intervenção visual, é linguagem viva que inscreve presenças, escancara silêncios e convida a um novo olhar sobre os espaços que insistem em existir.

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Antes de Falar: Os 3 Filtros da Sabedoria Socrática

João trabalhava em um escritório de uma grande empresa, onde a rotina era marcada por metas, prazos e a constante interação entre os colegas. Como em muitos ambientes de trabalho, o café da manhã e as pausas para o café eram momentos de descontração, mas também de conversas paralelas que, por vezes, se transformavam em rumores sobre a vida pessoal e profissional de outros funcionários. Certo dia, João ouviu uma conversa entre dois colegas sobre Pedro, um dos funcionários mais antigos da empresa.

Os colegas comentavam, em tom de fofoca, que Pedro estava prestes a ser demitido por causa de um suposto erro grave. João ouviu aquilo e, por um instante, sentiu-se tentado a repassar a informação para outros, talvez até para seus amigos mais próximos no escritório. Afinal, era algo que afetava diretamente o ambiente de trabalho, e seria interessante estar “por dentro” das últimas novidades.

No entanto, uma inquietação tomou conta de João. Ele se lembrou de uma antiga conversa filosófica que tivera com um amigo, em que haviam discutido sobre os três filtros socráticos. “Será que essa informação que acabei de ouvir passa pelos três filtros?”, ele se perguntou. E assim, João iniciou um processo reflexivo que o conduziria a uma decisão importante.


Primeiro filtro: A verdade

O primeiro filtro que passou pela mente de João foi o da verdade. Ele se perguntou: “Será que isso que ouvi é realmente verdade? De onde vem essa informação? Tenho como confirmá-la?”. Ao relembrar a conversa dos colegas, João percebeu que o que eles estavam fazendo era especular. Ninguém ali havia falado com certeza sobre a situação de Pedro; era apenas um rumor que se espalhava rapidamente, sem nenhuma confirmação oficial.

João refletiu: quantas vezes ele mesmo havia sido vítima de informações falsas ou distorcidas? E mais, ele sabia o quanto informações incorretas podiam gerar mal-entendidos e prejudicar pessoas inocentes. Afinal, Pedro poderia estar com problemas que ele mesmo desconhecia, ou talvez a situação fosse muito diferente do que haviam especulado.

Ao concluir que não havia certeza sobre a verdade do que ouvira, João começou a perceber que não seria sábio repassar adiante. Porém, mesmo que fosse verdade, será que valeria a pena compartilhar? Isso o levou ao segundo filtro.


Segundo filtro: A bondade

Agora, João se perguntou se compartilhar aquela informação faria bem a alguém. Ele refletiu sobre o impacto que suas palavras poderiam ter sobre Pedro e sobre o ambiente de trabalho como um todo. Se Pedro estivesse realmente prestes a ser demitido, espalhar esse rumor apenas aumentaria o estresse e o clima de desconfiança ao seu redor. João lembrou-se de como a empresa já estava em um período de mudanças e como isso deixava todos tensos. Compartilhar mais esse rumor poderia gerar insegurança entre os funcionários e, pior, prejudicar ainda mais a imagem de Pedro diante dos colegas, antes mesmo de qualquer decisão oficial.

Mesmo que a informação fosse verdadeira, era evidente que não traria nenhum benefício a Pedro ou a qualquer outra pessoa ao redor. A bondade, pensou João, não estava apenas em não causar mal diretamente, mas também em não alimentar conversas que pudessem gerar desconforto e sofrimento desnecessário.

Mas então, ele ponderou o último filtro: ainda que a verdade fosse duvidosa e a bondade questionável, haveria algum motivo para que essa informação fosse realmente útil?


Terceiro filtro: A utilidade

A última questão que João precisou enfrentar foi a da utilidade. Mesmo que o que tivesse ouvido fosse verdadeiro e, em algum nível, não tão prejudicial, seria aquilo útil? Traria algum valor prático ou construtivo compartilhar essa informação com outras pessoas?

João ponderou: em que aquilo poderia mudar a sua rotina de trabalho ou a de seus colegas? Afinal, saber sobre uma possível demissão de Pedro não mudaria a situação de ninguém, exceto para gerar mais especulações e comentários vazios. Além disso, João percebeu que ele não era a pessoa que poderia tomar qualquer tipo de ação útil diante daquilo. Se Pedro realmente estivesse em uma situação delicada, caberia aos superiores ou aos gestores resolverem, e não a ele ou aos seus colegas de trabalho.

Diante disso, João concluiu que compartilhar o rumor não traria nenhuma utilidade prática. Seria apenas uma forma de alimentar fofocas e aumentar a ansiedade dos colegas, sem contribuir de maneira positiva para o ambiente de trabalho.

Depois de passar pelos três filtros, João tomou sua decisão: ficar em silêncio. Ao contrário do que poderia parecer, o silêncio naquele momento não era uma omissão ou negligência, mas uma escolha consciente e ética. Ele percebeu que não precisava espalhar uma informação incerta, que poderia causar danos e que, no fim das contas, não teria nenhum valor prático para ninguém. João seguiu sua rotina, sem alimentar mais conversas sobre Pedro e focando em seu próprio trabalho.

Essa decisão, embora simples, foi um exercício de sabedoria que muitos esquecem em meio à pressa cotidiana. Em um mundo onde informações circulam sem controle, aprender a aplicar os três filtros socráticos é mais relevante do que nunca. A verdade, a bondade e a utilidade são pilares que nos ajudam a viver de forma mais consciente, refletindo sobre o poder das palavras e suas consequências. Afinal, muitas vezes, o verdadeiro ato de sabedoria está não no que dizemos, mas no que escolhemos não dizer.

Agora, resta uma pergunta a você, cara leitora / caro leitor: quais conversas, informações ou pensamentos passariam pelos três filtros socráticos no seu dia a dia?

Fonte da Imagem: gerada com IA.

Como citar essa pensata: Barbosa, Aline dos Santos. Antes de Falar: Os 3 Filtros da Sabedoria Socrática. Schola Akadémia, v.3, n.6, p. 1-3. Disponível em: www.scholaakademia.com, 2024.

Sobre a autora

Aline Barbosa

Filósofa, Doutora e Mestra em Administração de Empresas. Bacharel em Comunicação Social. Atualmente cursando Licenciatura em História. É professora, Orientadora e Mentora Acadêmica. Tem interesse de pesquisa nas temáticas sobre Filosofia, Ética, Amor, Desigualdade de Gênero nas Organizações e Sociedade, Violência contra as Mulheres, Carreiras não Tradicionais, Estratégia e de Sustentabilidade, e publica estudos nacionais e internacionais sobre estes tópicos.

A Arte do Oleiro: O Barro que Molda o Homem e a Sua Jornada

No âmago da terra repousa uma matéria-prima humilde e ancestral: o barro. Na complexidade de sua composição, encontramos uma riqueza simbólica e prática que perpassa tanto a criação do homem quanto a construção de civilizações. No livro de Gênesis, lemos que “O Senhor Deus modelou o homem com barro da terra. Soprou-lhe nas narinas e deu-lhe respiração e vida. E o homem tornou-se um ser vivo” (Gênesis 2:7). Essa passagem não só aponta para a origem divina do ser humano, mas também revela a profunda conexão entre o homem e a terra. A história do oleiro Antônio e da arqueóloga Lúcia ilustra a adaptabilidade do barro como um poderoso símbolo para nossas vidas.

Antônio acorda cedo todos os dias e vai para sua oficina, um espaço simples repleto de lembranças e histórias de sua família. Desde pequeno, ele aprendeu a moldar o barro com seu pai e avô, perpetuando uma tradição que alimentou sua família por gerações. Para ele, o barro não é apenas uma matéria-prima, mas um elemento sagrado que conecta sua família à terra e à essência da vida.

Um dia, enquanto trabalhava em seu torno, foi interrompido por uma visitante que ele não reconheceu de imediato. Lúcia, agora uma arqueóloga renomada, contou para ele como uma de suas esculturas a inspirou quando criança e a levou a seguir sua paixão pelo estudo de artefatos de cerâmica. A estátua que recebeu de presente de seus avós, esculpida por Antônio, tornou-se um símbolo de sua carreira.

Ela explicou para Antônio como a manipulação do barro representou uma das primeiras grandes conquistas do homem pré-histórico e como, por meio de suas pesquisas, ela podia datar e analisar peças cerâmicas antigas, revelando histórias sobre civilizações passadas. Para ela, o barro era um protagonista do desenvolvimento cultural e tecnológico da humanidade.

O barro simboliza a capacidade humana de aprender e se transformar. Assim como a argila pode ser moldada de inúmeras formas, nós também temos o potencial de nos adaptarmos às mudanças e superarmos adversidades. Antônio, moldando sua vida e sustento a partir do barro, representa essa resiliência. Em nossas jornadas, essa adaptabilidade é essencial para enfrentar uma vida em constante mudança e para inovar dentro de nossas áreas de atuação.

A cerâmica, além de uma conquista tecnológica, também é um meio de expressão cultural e artística. Civilizações antigas, como a Grécia, a China e as Américas, utilizaram o barro para criar artefatos que ainda hoje nos revelam suas crenças, valores e modos de vida. Lúcia, por meio de seu ofício, preserva e revela essas histórias, inspirando-nos a valorizar nossas próprias contribuições como humanidade.

Em um mundo que busca cada vez mais práticas sustentáveis, o uso do barro na construção civil apresenta uma alternativa ecológica e eficiente. Técnicas tradicionais, como as habitações de taipa e adobe, oferecem propriedades térmicas superiores e demandam menos energia. A integração desses métodos com tecnologias contemporâneas pode resultar em soluções inovadoras que respeitam o meio ambiente e preservam nossas tradições.

Antônio e Lúcia simbolizam a continuidade e a transformação. Ele, com sua vocação de moldar o barro, e ela, com sua capacidade de estudar e preservar essas criações, demonstram como o passado e o presente se entrelaçam para criar o futuro. A habilidade de Antônio em criar peças transcende a utilidade, alcançando o plano espiritual e artístico, reflete a importância de nossas raízes enquanto olhamos para o amanhã. Lúcia, inspirada por uma estátua de barro, dedicou sua carreira ao estudo deste material, mostra como pequenas influências podem ter grandes repercussões, incentivando-nos a buscar nossas próprias paixões e a deixar um legado significativo.

Em nossas vidas, sermos como o barro significa sermos flexíveis, adaptáveis e receptivos às mudanças. A capacidade de se reinventar e de moldar nossas habilidades conforme as necessidades do contexto é essencial para o sucesso a longo prazo. Assim como Antônio e Lúcia encontraram significado e propósito no barro, podemos encontrar inspiração utilizando suas lições para guiar nossas vidas. A argila, em sua essência, continua a transformar nossa jornada e o mundo ao nosso redor, conectando, de formas diferentes, o ser humano e a natureza.

Convidamos você cara leitora e caro leitor a refletir: estamos sendo como o barro, adaptando-nos e transformando-nos continuamente para criar um futuro mais resiliente e inovador para nós e os outros?

Como citar essa pensata: Barbosa, Luíza Chiarelli de Almeida; Barbosa, Aline dos Santos. A Arte do Oleiro: O Barro que Molda o Homem e a Sua Jornada. Schola Akadémia, v.3, n.5, p. 1-3. Disponível em: www.scholaakademia.com, 2024.

Sobre as autoras

Luíza Chiarelli de Almeida Barbosa

Arquiteta e Urbanista, Mestre em Gestão Urbana e Especialista em Gestão Escolar e em Formação docente para EAD. Doutoranda em Gestão Ambiental. Coautora do livro Vales Imaginários: Anhangabaú. É professora nos cursos de Arquitetura e Urbanismo no Centro Universitário Internacional. Tem interesse de pesquisa nas temáticas relacionadas a Filosofia, Artemídia, Interações Socioespaciais, Comunicação, Cultura e Educação.

Aline Barbosa

Filósofa, Doutora e Mestra em Administração de Empresas. Bacharel em Comunicação Social. Atualmente cursando Licenciatura em História. É professora, Orientadora e Mentora Acadêmica. Tem interesse de pesquisa nas temáticas sobre Filosofia, Ética, Amor, Desigualdade de Gênero nas Organizações e Sociedade, Violência contra as Mulheres, Carreiras não Tradicionais, Estratégia e de Sustentabilidade, e publica estudos nacionais e internacionais sobre estes tópicos.

Quero a calma. Tenho a tempestade. Aprendo com ambas. Qual melhor me define?

Ana Beatriz era uma mulher gentil e educada, com um sorriso sempre pronto para iluminar o dia de quem quer que fosse. No entanto, sua rotina diária no metrô de uma grande cidade a colocava à prova constantemente. Todos os dias, ela enfrentava o desafio de pegar o metrô lotado para ir e voltar do trabalho. O vagão do trem era um campo de batalha, onde a cortesia muitas vezes era deixada de lado em meio à luta por espaço.

Inicialmente, Ana tentava manter sua postura amável, esperando pacientemente na plataforma pela oportunidade de entrar no trem. No entanto, ela logo percebeu que sua gentileza estava lhe custando tempo precioso e causando atrasos constantes em seu trabalho. Foi então que ela começou a agir de maneira diferente e a cada manhã se preparava para a batalha que se aproximava. Quando as portas do trem se abriam, ela precisava ser rápida e decidida.

Empurrar, usando força física para abrir caminho entre a multidão, tornou-se parte de sua rotina. Cada dia era uma luta para garantir um lugar no vagão. Às vezes, ela sentia-se culpada por sua própria mudança de comportamento. Aquela não era a pessoa que ela queria ser, mas as circunstâncias pareciam forçá-la a agir de forma diferente.

Mesmo assim, ela nunca perdeu completamente sua gentileza. Entre os empurrões e cotoveladas, ela ainda encontrava momentos para sorrir e pedir desculpas quando acidentalmente esbarrava em alguém. Ela sabia que, apesar das circunstâncias adversas, ainda podia manter sua integridade. No entanto, a cada dia que passava, Ana Beatriz se perguntava até quando precisaria agir de maneira tão diferente do que realmente era?

A Ética Kantiana fundamenta-se na ideia de que devemos agir de acordo com o dever, fazendo o que é certo independentemente do contexto ou das consequências. Segundo Kant, a moralidade é universal e baseada na razão, e devemos agir de forma a tratar cada indivíduo como um fim em si mesmo, e não como um meio para atingir nossos próprios fins.

No entanto, uma frase de Viola Davis em seu livro “Em busca de mim” lança luz sobre uma realidade diferente. Ela expressa a ideia de que, em situações extremas, como na luta pela sobrevivência, a moralidade pode ceder lugar à necessidade urgente de garantir a própria existência. Nessas circunstâncias, as pessoas podem ser levadas a agir de maneiras que, em condições normais, não considerariam moralmente aceitáveis.

Ana Beatriz, a personagem da nossa história, é um exemplo claro dessa aparente dicotomia entre a Ética Kantiana e a realidade vivida. Diante do contexto desafiador do metrô lotado, ela se vê forçada a agir de maneira diferente do que “realmente é” para garantir sua própria sobrevivência no ambiente caótico do transporte público. A pressão das circunstâncias a leva a empurrar, lutar e agir de forma mais agressiva do que gostaria, comprometendo sua verdadeira natureza gentil e educada.

Isso nos leva a refletir sobre o fato de que os problemas nem sempre revelam nosso melhor lado. Em situações adversas, somos testados de maneiras que podem nos levar a agir de forma diferente, ou até mesmo contrária, aos nossos princípios morais e éticos. As dificuldades da vida muitas vezes nos obrigam a fazer escolhas difíceis, e nem sempre podemos manter o nível de integridade moral que idealizamos para nós mesmos. Além disso, as dificuldades e contextos ruins não necessariamente nos tornam pessoas melhores ou revelam o que há de melhor em nós.

Certamente você já se deparou com a afirmação de que é na adversidade que nosso caráter é moldado. No entanto, te convidamos a refletir sobre o seguinte:

Será que realmente é em ambientes turbulentos e conturbados, como um metrô lotado, que o melhor de nós floresce? Ou será que o melhor de nós se revela em ambientes onde desfrutamos de tranquilidade e serenidade para sermos verdadeiramente quem somos? Seria o meio do caminho o melhor modo de moldarmos nosso caráter?

Especialmente no sentido da última questão, Aristóteles nos ensina sobre a importância do equilíbrio como virtude. Sob essa ótica, estar em um ambiente equilibrado, rodeado por pessoas que nos apoiam e nos fazem bem, pode ser fundamental para formar quem somos e para influenciar positivamente nossas ações. Quando estamos em um contexto que favorece o florescimento de nossas virtudes, somos capazes de agir de acordo com nossos princípios morais e éticos, sem sermos compelidos pelas pressões externas.

O Estoicismo e o Budismo, por sua vez, nos ensinam que, por vezes, os maiores vilões de nossos pensamentos e ações não são os problemas em si, e sim a forma como os encaramos. Não podemos negar que as adversidades nos ensinam. Para salvar alguém em uma emergência podemos ver aflorada nossa coragem. Para inocentar uma pessoa honesta de uma acusação maldosa podemos usar o máximo de nosso senso de justiça. Para combater a fome em nossa cidade podemos exercer nossa virtude da solidariedade. E assim por diante.

Embora essas adversidades citadas permitiram o florescimento de nossas virtudes, devemos ter atenção ao fato de que determinadas situações adversas podem nos desafiar e nos levar a agir de maneira contrária aos nossos valores. Nesse caminho, o ambiente equilibrado e favorável revela-se como um tipo de possível antídoto para que possamos, verdadeiramente, demonstrar nosso melhor eu e viver de acordo com nossos princípios mais fortes.

Como citar essa pensata:  Barbosa, Aline dos Santos; Romani-Dias, Marcello. Quero a calma. Tenho a tempestade. Aprendo com ambas. Qual melhor me define? Schola Akadémia, v.3, n.4, p. 1-3. Disponível em: www.scholaakademia.com, 2024.

Sobre os autores

Aline Barbosa

Filósofa, Doutora e Mestra em Administração de Empresas. Bacharel em Comunicação Social. Atualmente cursando Licenciatura em História. É professora, Orientadora e Mentora Acadêmica. Tem interesse de pesquisa nas temáticas sobre Filosofia, Ética, Amor, Desigualdade de Gênero nas Organizações e Sociedade, Violência contra as Mulheres, Carreiras não Tradicionais, Estratégia e de Sustentabilidade, e publica estudos nacionais e internacionais sobre estes tópicos.

Marcello Romani-Dias

Filósofo, Doutor e Mestre em Administração de Empresas. Bacharel em Administração. Atualmente cursando Licenciatura em História. É Professor Titular nos Programas de Pós Graduação em Administração de Empresas e Gestão Ambiental da Universidade Positivo. Tem interesse de pesquisa nas temáticas sobre Filosofia, Ética, Virtudes, Estratégia e de Sustentabilidade, e publica estudos nacionais e internacionais sobre estes tópicos.